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Ministro Gonçalves Muandumba, em entrevista ao Jornal “A BOLA”

«O desporto é um pilar do futuro de Angola»

Empossado nas funções de Ministro da Juventude e Desportos de Angola a 3 de Outubro de 2008, Gonçalves Manuel Muandumba dá conta do empenhamento do País na organização do CAN de 2010 e das áreas fundamentais que sustentam o plano de acção governativa no desporto.

Em extensa entrevista publicada esta segunda-feira por A BOLA na sua edição de Angola, o ministro não fala só de desporto, mas do próprio País, do seu enorme esforço de reconstrução nacional.
O desporto foi assumido como um dos pilares desse desenvolvimento, como factor de paz, de fraternidade, de saúde física e mental, de preservação de valores.
O Campeonato Africano das Nações tem sido a alavanca para dotar o País não só de melhores e modernas infra-estruturas desportivas mas também para investir em muitas áreas, como, por exemplo, as redes viárias e de transportes, as telecomunicações ou a saúde.
Mas há muito mais em curso, como a grande campanha de formação de quadros, a massificação da prática desportiva pelas províncias ou a remodelação legislativa.

VONTADE DE APRENDER

«De que adianta termos modernas infra-estruturas se, depois, não tivermos pessoas para fazer um trabalho tecnicamente competente?», desafia Gonçalves Muandumba, que dá conta de um país com sede de conhecimento.
Angola fervilha e o ministro dos Desportos, orgulhoso de ser angolano, sente-se recompensado pelo que muito que está a ser feito.
«Tenho orgulho do Governo a que pertenço, jovem, dinâmico e com muita sensibilidade. E de ter como presidente José Eduardo dos Santos. Um líder que garantiu a paz em Angola e que é aceite e respeitado. E que também nas questões da juventude e desporto revela uma sensibilidade e empenhamento notáveis», declara com entusiasmo.
Angola é um país jovem, onde 60 por cento da população tem menos de 30 anos. Logo, é por definição um país de futuro.

O COCAN manifestou o desejo de Angola organizar o melhor CAN de sempre. O Governo partilha desse anseio? É realista?
- O Governo angolano cumprirá integralmente com todas as responsabilidades assumidas para a organização do CAN, mesmo com constrangimentos financeiros. O nosso desejo é que seja o melhor CAN de sempre. Mas ainda temos de trabalhar muito. O CAN é uma janela para Angola, para demonstrar as suas potencialidades. Temos sentido o conforto não só da enorme mobilização dos angolanos como a solidariedade do mundo do futebol, do presidente da FIFA, da CAF, dos países da CPLP, e de craques como Drogba ou Eto’o.

Para um país que esteve em guerra durante décadas e que está ainda na primavera do seu processo de reconstrução, a candidatura à organização do CAN não teve uma dose, perdoe-me a expressão, de alguma loucura?
- [sorrisos]...Os angolanos gostam de desafios. Percebemos o que estava em causa, porque o CAN se apresentava como uma alavanca para o desenvolvimento. Não estamos só a falar de quatro estádios novos e das infra-estruturas desportivas de apoio. Estamos a falar também desde as redes viárias à área da saúde, da segurança à hotelaria, entre outras. Não que fossem coisas que não seriam feitas, mas o CAN foi a oportunidade de acelerar este processo de reconstrução nacional. Passe a imodéstia, sentimo-nos capazes abraçar este grande projecto.

Tendo por comparação outras organizações do CAN, no passado, Angola sente que vai fazer melhor?
- Vimos o que estava a ser feito e colocámos a nós mesmos o desafio de fazer melhor. Organizar o melhor CAN de sempre é, também, uma questão de orgulho nacional. É um repto que lançámos também ao sector privado, para que acompanhasse o Governo nesta grandiosa tarefa.

OBRAS PRONTAS A TEMPO

É possível quantificar o esforço financeiro do Governo no CAN?
- Se por um lado existe um apoio directo aos equipamentos e infra-estruturas desportivas, há muitos sectores, como o hoteleiro, as redes viárias, a reabilitação de aeroportos, as redes de transportes, etc, que obrigaram a avultados investimentos, acelerados por causa da organização do CAN mas inseridos no plano de reconstrução nacional. Digo isto para lhe transmitir que não é possível, neste processo, separar as águas e apontar uma verba específica a propósito do CAN. Tudo isto é um plano bem mais abrangente.

Em Portugal houve alguns sectores que contestaram o investimento público no Europeu de 2004. Como foi em Angola?
- Foi pacífico. No início, um ou outro comentário, mas todos abraçaram esta causa: partidos políticos, jornalistas, empresários, agentes desportivos... Angola merecia este reconhecimento de África. Assumimos essa responsabilidade como ‘um só povo uma só nação’.

Tem a garantia que as obras dos quatro novos estádios e de todas as estruturas directas de apoio estarão concluídas no prazo previsto?
- Temos essas garantias. Os estádios, por exemplo, serão entregues à organização do CAN, prontos para serem inaugurados, no final do mês de Outubro. Os prazos, tudo o indica, serão cumpridos.

Os olhos de África e do Mundo estarão em Angola durante o CAN. Que imagem de si mesmo é que o País quer transmitir para o exterior?
- Queremos transmitir uma imagem de um país em paz, com segurança e estabilidade. Que Angola é um país de oportunidades, bom para o investimento e seguro para os investidores, devido à sua estabilidade política, com democracia, liberdade de opinião e de expressão. Queremos também mostrar ao mundo a nossa solidariedade com todos os povos que nos visitarem e a hospitalidade dos angolanos. Queremos ainda mostrar ao Mundo o esforço de reconstrução que Angola está a levar a cabo.

MANUEL JOSÉ SERÁ BEM-VINDO

A cereja no topo do bolo seria o sucesso desportivo da Selecção angolana no CAN. Está confiante numa boa prestação?
- Estou muito confiante que a Selecção vai corresponder às expectativas.

A Selecção falhou o apuramento para o Mundial de 2010 e houve uma fase de resultados de jogos de preparação que foram negativos, com sobressaltos organizativos. Partilha da apreensão dos angolanos?
- As preocupações das pessoas eram as minhas também. Sentimos que faltava um toque, um chefe, um líder com experiência reconhecida e prestígio intocável para guiar a Selecção de Angola. Sentimos também que era preciso ajudar a Federação a organizar-se melhor para estar à altura desta competição.

O treinador Manuel José é o líder ideal para a equipa?
- A entrada de Manuel José é bem-vinda. Psicologicamente, já mudou o quadro de pessimismo. As pessoas já não são críticas. Não estamos a exigir o céu à Selecção, mas pelo menos esperamos ver atitude. Que os jogadores mostrem que fizeram o melhor. Desejo todo o sucesso ao seleccionador e temos-lhe dado todo o carinho e apoio para que o trabalho corra bem.

Que tipo de apoio o Governo está a dar à Selecção e a Manuel José?
- Que não lhe falte nada. Que ninguém interfira no seu trabalho, que faça como entender melhor. Que tenha os meios que ele necessitar. Há uma equipa na Federação só para apoiar Manuel José e a Selecção. E no que for preciso, o Governo cá está para ajudar.

Pedir à Selecção que ganhe o CAN é realista?
- A nossa equipa portou-se muito bem no último CAN e só perdeu com o Egipto, que ganhou a prova, com uma arbitragem muito discutível. Tal como esteve muito bem na Alemanha, na estreia num Mundial, pelo menos ao nível da atitude. Logo, acreditamos que o comportamento será igualmente muito bom no CAN, em Angola. Todos os angolanos estão prontos para apoiar de forma incondicional a sua Selecção, para serem, de facto, o décimo segundo jogador. Estamos preparados para qualquer resultado. O melhor seria ganharmos, mas pelo menos ir o mais longe possível. Para um país que faz um investimento ímpar na organização do CAN, ganhar o título seria uma prenda muito grande e uma satisfação enorme para o povo angolano.

MIL CAMPOS DE FUTEBOL ATÉ 2012

Angola atribui ao Desporto a dignidade institucional de um ministério. Essa dignidade traduz-se nos recursos disponibilizados para o Desporto?
— Veja bem, neste momento estão a ser construídos quatro novos estádios para o CAN. Estão também em construção 11 campos de apoio ao CAN. Há muitos programas ambiciosos em curso. Há que reconhecer o enorme esforço financeiro do Governo angolano. Devo destacar a sensibilidade que a estrutura superior do Governo tem com a importância e o papel do desporto na qualidade de vida das pessoas, na integração social, no desenvolvimento humano ou na educação para a saúde física e mental e para os valores humanos. Apostar no Desporto é também apostar no futuro de Angola. Sensibilidade que começa no Presidente da República, que também foi desportista.

Na hora da divisão do orçamento pelos ministérios, é muito chato a reivindicar verbas para a Juventude e Desportos?
— [sorrisos] Chateio muito, chateio muito... Porque o Desporto é uma área social e abrange muitas vicissitudes. Desporto que, convém não esquecer, sempre assumiu um papel relevante em Angola. Foi um factor de unidade nacional. Foi um factor que trouxe alegrias em tempo de guerra.

— Tomou posse há menos de um ano. Quais a prioridades que traçou para este mandato?
— São quatro os eixos principais: reformulação da legislação desportiva; formação de quadros desportivos; massificação do desporto; alto rendimento.

A FORMAÇÃO É PALAVRA CHAVE

O que está a ser feito na área de legislação desportiva?
— Uma reformulação que já está em curso e para a qual temos contado com a cooperação graciosa, por exemplo, de especialistas em direito desportivo de Portugal e do Instituto do Desporto de Portugal. A nossa legislação foi concebida num contexto diferente, hoje temos Paz, novas infra-estruturas e novas exigências, que merecem outra resposta.

Qual o papel da formação no desenvolvimento do desporto angolano?
— Decisivo. Queremos formar quadros desportivos. De atletas, de treinadores, de dirigentes... Por exemplo, coma criação de um Instituto Superior do Desporto e três Institutos médios nesta primeira fase, o que será alargado. Outro exemplo: cada uma das seis novas universidades públicas que vão arrancar terá um curso superior de educação física e desporto. Precisamos de quadros, de pessoas competentes, capazes de potenciar todo o dinamismo que estamos a implementar no País.

A massificação do desporto passa pela aposta clara nas 18 províncias?
— É fundamental que assim seja. E para provar que não falamos apenas de boas intenções, gostaria de destacar o programa Despertar. Um programa que pretende chegar a 180 mil jovens de todo o Pais num período de quatro anos. Programa que consiste em actuar ao nível da comunidade, ajudando os jovens a combater o ócio, a delinquência ou a droga.

Dê-me um exemplo de uma medida concreta do programa Despertar...
- Vamos construir, até 2012, 1000 campos de futebol por todo o País. Nos bairros, nas sanzalas, nas aldeias... Construímos um campo com balneários e vedado e entregamo-lo às comunidades. Desses mil, 280 já estão a ser construídos. Mas queremos ir muito além do futebol e massificar modalidades como o basquetebol, andebol, atletismo, ginástica, hóquei em patins e xadrez. Esforço para o qual contamos como contributo de seis mil agentes desportivos que estamos a formar pelo País fora. Não é só chegar e construir campos, há que dar base técnica ao trabalho a fazer.

Falou da alta competição. Para quando um centro de alto rendimento?
— Estamos a projectar um para a cidade do Huambo. Aguarda pela oportunidade certa, face aos constrangimentos financeiros da crise mundial. Tal como estamos a reestruturar o Centro de Medicina Desportiva. E a apostar em infra-estruturas desportivas de topo, com formadores também de topo.

NOVAS ESCOLAS GARANTEM DESPORTO

Qual o papel do desporto escolar na estratégia do Governo?
— O desporto escolar é fundamental para o plano de massificação que defendemos. Já acordámos com o Ministério da Educação que a partir de agora todos os estabelecimentos novos de ensino, públicos ou privados, têm de ter uma componente desportiva. Repare: só neste ano lectivo, entraram em funcionamento 35 institutos politécnicos novos. Cada um tem um campo de futebol, um polidesportivo e um ginásio para os alunos praticarem desporto.

A criação do Conselho Superior do Desporto faz parte da estratégia de promoção e exigência desportiva?
— O Conselho Superior do Desporto, pelas suas funções e grau de exigência, foi o marco na reestruturação total que pretendemos para o desporto no nosso País. E vamos agora iniciar uma grande fase de debate nacional sobre que desporto pretendemos e como lá chegar. Queremos ouvir as federações, os clubes, os agentes desportivos. Que todos participem para termos um desporto com bases científicas, rigorosas, sustentadas. Todos serão importantes na sua definição.

Jorge Pessoa e Silva
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